O jogo bonito

Andre Jockyman Roithmann
8 March 2015

Image credit: http://sp.imgci.com/PICTURES/CMS/26900/26975.jpg

Image credit: http://sp.imgci.com/PICTURES/CMS/26900/26975.jpg

No segundo semestre deste ano a Inglaterra e o País de Gales sediarão em conjunto a Copa do Mundo de Rugby, evento que contará com a participação de vinte nações. Infelizmente, a equipe brasileira não passou das etapas eliminatórias (perdendo para Chile e Uruguai), mas ainda assim será uma competição para brasileiro ver. Não é necessário falar aqui sobre os bilhões que nem a Inglaterra nem Gales gastaram com estádios e obras –sendo justos, vemos que já havia tanto estádios quanto infraestrutura em funcionamento, pois anualmente aqui se realizam torneios de rugby internacionais de grande magnitude, como o Six Nations. É preciso ver, no entanto, o jogo em si. Desde que comecei a acompanhar o esporte, me impressionaram certas atitudes, dentro e fora do campo, se compararmos aquelas que vemos no futebol, tanto em nível local quanto internacional.

Existe um estereótipo que o rugby é um jogo violento: não o é. É um jogo bruto, poucos saem ilesos do campo (de batalha), mas é um jogo onde o adjetivo “sujo” mais comumente se aplica às caras dos jogadores – “tacleados” contra o chão barrento – do que a suas atitudes. Existe uma regra, “substituição por sangramento”, que garante ilimitadas trocas de jogadores entre o campo e o banco, dado que o jogador em campo tenha que ter um sangramento estancado. É uma regra necessária, mas nunca em minha expêriencia de espectador a vi sendo usada por causa de uma briga ou mesmo soco. Pelo contrário, semana passada assisti a dois jogadores rivais tendo que ser retirados e substituidos por sangramento ao mesmo tempo; a razão: entraram de cabeça um no outro… O jogo continuou normalmente, havia um campeonato a ser disputado. Quando há de fato uma situação irregular, onde o jogador agiu de maneira maliciosa, é capa de jornal, polêmica nas redes sociais. No futebol, pelo contrário, me parece que o “jogo bonito” se desintegra muito mais rapidamente em jogo sujo. O simples fato que destacamentos da polícia militar estão sempre presentes nos estádios – para apartar brigas tanto entre jogadores tanto quanto entre torcedores – já é indicativo que há algo fundamentalmente errado. Vale lembrar que isso não cabe apenas para o Brasil: quem nunca ouviu dos hooligans ingleses?

Por que tal acontece? Uma possível razão – ou pelo menos uma delas – é a maneira através da qual é efetuada a arbitragem no rugby. Todos os árbitros têm conexão direta via um microfone com uma cabine de comando central, através do qual podem pedir opiniões sobre esta ou aquela jogada ou, ainda mais surpreendentemente, pedir que a jogada seja repassada em um telão no próprio estádio para o benefício de uma marcação mais consciente e transparente. Não apenas o público assiste, com seus próprios olhos, o mesmo que o juíz ve antes de soprar o apito, é possível comprar por meras cinco libras um fone de ouvido sintonizado na mesma frequência em que o árbitro conversa com o resto da equipe. Tais simplíssimas ações tornam o fator humano (bem ou mal intencionado) quase que obsoleto, garantindo uma melhor e reflexiva aplicação das regras. Talvez, por causa desta responsibilidade com o público, a voz do árbitro é muito mais autoritária no campo, e os jogadores o sabem. Aglomerações de jogadores ao redor dele, pedindo a revisão desta ou aquela decisão, são uma cena de ficção-científica em uma partida de rugby. Uma cena comum, em contra-partida, é o juíz parar o relógio (outro poder exlusivo do rugby com relação ao ancestral bípede), chamar os capitães de ambas as equipes – pois apenas eles se dirigem ao juíz diretamente – e dar-lhes um belo sermão por essa razão ou aquela (em geral, falhas na formação do scrum, um saco…). Em um incidente que virou sensação na Internet, o famoso árbitro Nigel Owens, tendo visto uma irregularidade na conduta verbal de um jogador, chamou-o junto a seu capitão e disse: “I don’t think we’ve met before, but I am the referee on this field, not you, stick to your job and I’ll do mine, if I hear you shouting for anything again, I’m going to be penalising you, this is not soccer, is that clear?”[1] Em outra ocasião, o mesmo Nigel, vendo um jogador atirar-se no chão como é moda no futebol profissional, simplesmente dirigiu-se até o mesmo e lhe disse: “The football stadium is five-hundred yards that way.”[2]

Um último ponto que gostaria de descrever é sobre a sensação que tenho que, em sua totalidade, o rugby é um jogo muito mais coletivo que o futebol. Em sua crua constituição já existem setas apontando nessa direção:scrums, rucks, mauls e laterais são todas formações que requerem a presença e cooperação de uma certa quantidade de jogadores; no futebol, a única semelhança disso é a “barreira” empregada no evento de uma falta. Similarmente, é raro ler ou ouvir que um jogador de rugby “carregou o time”. Mesmo no tempo dos grandes chutadores O’Gara e Wilkinson (da Irlanda e Inglaterra respectivamente), o que se falava era como o time, jogando coerentemente, permitiu que eles fizessem tantos gols. É uma simples inversão entre o sujeito e o predicado, mas que, me parece, faz toda a diferença, contribuíndo para que o gramado do estádio de rugby permaneça infértil ao crescimento de jogadores “maiores que a vida”, muitas vezes confiantes no “apoio” de uma arbitragem ineficaz e não responsíva ao público.

O futebol sim tem capacidade de ser o “jogo bonito” que se diz ser, o que escrevo deve ser tomado simplesmente como uma observação referente ao estado do jogo na atualidade, que realmente desencoraja muitos de seguir o esporte em seu presente estado. Em seu presente estado, as polêmicas que acompanham quase qualquer partida de futebol fazem com que o esporte e toda a técnica envolvida tornem-se apenas um contexto para, o que me parece, uma peça sobre os bastidores: possível corrupção da arbitragem, fanatismo dos torcedores e exibicionismo dos jogadores. Apenas duas nações sul-americanas se classificaram para a Copa deste ano, mas, sorte nossa, foram nossos prezados hermanos: a Argentina – time que já foi “timão”, mas que logo o será de novo – e o Uruguai – grande revelação após vencer e, assim, desqualificar a Rússia, time de médio porte. Sendo assim, não tenho dúvida que estaremos todos torcendo para nossos vizinhos (não é?), assim acho que teremos uma grande chance de presenciar a beleza do barro limpo, por assim dizer.


[1] “Acho que não nos conhecemos ainda, mas eu sou o árbitro neste campo, não tu, fica com o teu trabalho que eu farei o meu, se eu te ouvir gritando por qualquer coisa de novo, eu vou te penalisar, isso não é futebol, certo?”

[2] “O estádio de futebol fica a quinhentas jardas naquela direção.”

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *