Era da Vodka

Andre Jockyman Roithmann
8 February 2015

Image credit: http://www.worldhistoryplus.com/worldhistorypictures/19/[GER]D.jpg and http://www.partyhouseliquors.com/wp-content/uploads/Stolichnaya-Vodka1.jpg Photoshop credit: Andre Jockyman Roithmann

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Na Escócia, persiste até hoje a instituição cultural dos clãs: associações familiares que, centradas na imagem do chieftain, alegam manter viva a memória cultural e a história de seus antepassados de séculos atrás. No entanto, como é testemunha a obra de Sir Walter Scott, grande parte deste sentimento (ou pelo menos da estrutura “moderna” dos clãs) é uma criação do Romantismo europeu do século XIX: é nessa época, por exemplo, que vemos a categorização quase que acadêmica dos tartans “de acordo” com seus devidos clãs de origem, chegando a um ponto onde, até hoje, costureiros especializados se negam a vender esse ou aquele tartan a pessoas não relacionadas ao clã do mesmo! Por essas e outras, a história nacional da Escócia, ou pelo menos aquela versão de cunho mais popular, esta aberta a todo tipo de interpretação ou crítica: da xenofobia ao cinismo. A obra de Eric Hobsbawn A Invenção das Tradições, entre outras, desenvolve mais detalhadamente a historicidade – ou falta desta – do folclóre escocês moderno.

Autênticas ou não, essas identidades vivem no centro do imaginário do povo que as cultiva e, acima de tudo, as aceita. O mesmo é observável na França: Napoleão III ergueu uma estátua em homenagem ao líder gaulês Vercingetorix, o último a ser curvar a César, e o mesmo foi feito na Alemanha para o chefe germânico Arminius – mais tarde conhecido como Hermann – que derrotou as legiões de Otávio Augusto em uma emboscada na Floresta de Teutoburgo. Em todos os casos citados observamos uma constante e consciente tentativa de certas comunidades, ou de seus respectivos líderes, em criar uma grande narrativa nacional, de forma a justificar a existência e relevância de suas nações.

A busca por uma ou outra justificativa histórica não é nada nova – Roma traçava a história de seus fundadores até Tróia, como se tal explicasse sua predestinação à grandeza – mas se tornou mais importante do que nunca após as convulsões históricas que ocorreram entre os séculos XVII e XX. Dentro desta cronologia, revoluções políticas, econômicas e intelectuais, assim como o advento dos grandes impérios europeus e (possivelmente por causa destes) a Primeira Guerra Mundial, trouxeram a tona um debate acirrado sobre nacionalismo e autodeterminação. A Nação-Estado tornou-se uma Razão de Estado. Além disso, como o costureiro especializado em tartans com sua clientela seleta, narrativas históricas de caráter exclusivo, assim como filosofias políticas, foram tecidas para sustentar tais estruturas nacionais.

No entanto, um indivíduo – ou mesmo uma sociedade inteira – ao estudar devidamente a história de sua nação e aquela de seus vizinhos próximos e longínquos, pode se defrontar com a seguinte questão: com quem compartilho mais semelhanças, meus vizinhos atuais, ou aqueles que habitaram a terra onde resido séculos atrás? Desconfio que Napoleão III teria menos dificuldades em conviver com Bismarck (e sabemos quantas dificuldades existiam nessa relação!), que com Vercingetorix, ou vice-versa com Arminius… Extendendo a questão, podemos nos perguntar se uma comunidade “nacionalista” pode ser justificada de tal maneira e, indo além, o quão válida (ou, no caso contrário, esotérica) é a noção que podemos criar e manter Estados baseados em narrativas nacionais.

Talvez essa seja uma questão fruto da nossa era de comunicações em massa e globalização. De fato, a relevância de tal inquérito se mostrou aparente para mim há algumas semanas atrás, enquanto viajando pelo continente europeu com amigos brasileiros. Nossas paradas – Lisboa, Amsterdam, Munique, Praga – demonstraram como, até certo ponto, a cultura da juventude “ocidental” é uniforme. Entre os quatro países visitados (a República Tcheca sendo uma exceção ocasional), e o Brasil, poucas foram as diferenças que pude notar entre a música desfrutada e os espaços físicos frequentados por jovens (como exemplo, me refiro ao artigo do ano passado sobre pubs, mas infelizmente onde cito o The Vic). Uma outra brasileira, hospedada no mesmo hostel que nós, chegou a abandonar o pub crawl organizado pelo mesmo (como eu próprio confesso ter feito algumas vezes), pelo mero fato que, para ela, não valia a pena pagar em euros o quê no Rio pagava em reais.

Não que tal seja demérito, pelo contrário tal facilita a interação e inclusão social entre jovens de todas as nacionalidades. Nada é exótico demais a ponto de causar estranheza, e o que é, é logo integrado ou assimilado. O século que vem se estabelecendo na última década-e-meia será um de sincretismo. Barreiras nacionais, é possível, perderão parte de sua conotação cultural e exclusiva. Da mesma forma, é esperado que Estados (representantes de um único grupo nacional ou não), se reformem para que tal integração amigável continue e se intensifique.

Como brinquei uma vez, entramos na Era da Vodka.

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